quarta-feira, 23 de maio de 2007

Viagem a mim

Saía finalmente da estradinha sinuosa e contorcida para entrar na via rápida. Repara que a janela outrora aberta na esperança de refrescar a cabeça tornava-se agora incómoda.
Faz quinze minutos que deixava a sua casa, uma discussão que queria esquecer, uma conversa que preferia não ter tido regressa agora vezes sem conta à sua cabeça como um disco riscado.
Está sol e não há nuvens, o tempo não está quente e parece pairar uma névoa típica da região no ar. Existe um certo misticismo associado a esta zona e hoje isso nota-se. Ela sente-se bem neste ambiente. Hoje está melancólicamente perfeito.
Não sabendo onde ir, deambulou por caminhos perdidos na memória, foi revivendo a paisagem, aqui e ali alterada, novas construções, alguns edifícios velhos abandonados, mas em todo o caminho uma certa familiaridade. Mais preocupada com aquilo que tinha deixado para trás não se apercebia onde se dirigia nem qual o caminho de regresso...simplesmente saiu de casa, chave na mão, umas quantas lágrimas quase a escaparem-se e um destino desconhecido no bolso.
Encontrou-se perdida, sem saber onde virar e para que direcção, hora e meia volvida e não sabia onde estava. Perguntou algumas indicações, não lhe souberam explicar ou não soube entender. Estava baralhada e ausente, a sua vida não estava nada como ela havia sonhado. Tudo uma confusão.
Acaba por reencontrar alcatrão conhecido, sítios que sempre existiram para ela, locais de passagem constante, um ritual escolar de antigamente, quando havia inocência.
Perturba-lhe a idéia de reviver isto. Encontra-se perante o portão da frente dos seus medos mais profundos, chegou até aqui agarrada pelas mãos do destino, viajou na sua maré, ao seu sabor estrada fora. A chave, sempre a teve e neste dia cinzento e sem sabor é confrontada com o seu futuro sonhado e perdido contra o seu presente torto e volátil. Pergunta-se se valerá a pena usá-la...
Relembra todo um passado apagado pelas experiências a ele associado. Revê-se em cada esquina do caminho que passa, em cada loja que outrora entrou e em cada sítio que cruza.
A Edificação aparece-lhe singela e abandonada quando pára o carro à sua frente e com um fio de coragem a escorrer-lhe face fora vira a cabeça para a sua esquerda. Sabe-lhe a sal quando a gota lhe chega aos lábios e pára por momentos a saboreá-la. Hesita. Não tinha sequer pensado em vir aqui e agora está cá.
Aquilo que começou como uma fuga é agora uma indecisão. se deve ou não seguir viagem, se deve voltar para trás e procurar o regresso ou se tem coragem suficiente para enfrentar tudo aquilo que está ali representado, naquelas paredes, naquele espaço.
Passa-se uma hora e começa a sentir umas picadas no pesçoso. Repara então que ainda não se mexeu desde que estacionou.Está estática, imóvel, como se pensar devagar ajudasse a não sentir aquele ardor.Respira fundo e tenta pensar em coisas positivas. O melhor que consegue é pensar o que seria que pessoas conhecidas que considera optimistas pensariam se tivessem naquela situação. E sente-se pequena, incapaz de melhor. Começa a sentir na pele a sua mísera condição à qual se submete sem luta de capa e espada. Assume a derrota. É uma perdedora.
Respira fundo e encosta-se no banco do carro. Chora lágrimas de incapacidade. Dói-lhe o peito de fazer força para manter dentro de si todos os demónios.
O sol já não parece tão alto e as sombras começam a surgir aqui e ali. Uma criança passa a correr pelo passeio com uma bola debaixo do braço seguida da mãe preocupada.
Começam a abanar as árvores e começa a abanar a mente. Começa a dizer a si mesmo tudo aquilo que sempre lhe disseram e que nunca acreditou. Começa a criar expectativas e tentar ver algo de positivo em estar ali, naquele sítio, naquele dia, naquela situação, com aquele humor e com aquela vontade. COmeça a remexer no fundo de si, a revolver a alma, a retorcer ideias e medos até não serem nada mais que uma mancha difusa no seu pensamento e sai do carro. Alheia a si e ao que a rodeia, trancou o carro, atravessou a rua, apenas lembrando-se de olhar para os lados quando estava a chegar ao passeio.
Aquilo que começou por uma escapadela cobarde a uma discussão, aquilo que foi um erro ter voltado aqui era agora um desafio mental que tinha de ganhar a si mesma.
Olhou para o portão. Reparou na tinta estalada e na cor que era diferente. Entrou para o jardim que despejava verde pelas bordas e sentiu-se tentada a voltar para o carro, ainda recolocou um pé no sentido do portão, mas, hesitante, continuou a andar em direcção às traseiras. Ao passar junto à janela vê um vulto dentro da habitação a mover-se. Assusta-se e regressa a passo rápido para o exterior do jardim, atravessa o portão tentando ter o cuidado de o deixar na mesma posição. Atravessa a estrada, abre o carro e entra. Expira profundamente.Olha novamente para a casa e sorri nem reparando que juntamente com o esticar dos lábios também as lágrimas escorrem. Quase que era apanhada. Sentiu-se bem em conseguir fazer o que acabara de fazer. Tentar.
Liga o carro e arranca. A rádio toca um hit musical recente, daqueles que passa quatro a cinco vezes ao dia. Ignora, vai mais confiante e mais segura de si. agora acredita que é capaz de tudo, mesmo sabendo que não, por momentos sente-se feliz consigo e com o mundo e, durante todo o caminho para casa a sua grande preocupação deixou de ser o que lhe aconteceu naquela casa que deixa para trás e como isso mudou-lhe a vida, lhe quebrou o espirito, lhe tirou a vontade.

2 comentários:

agent disse...

Lindíssimo!

Feltramagia disse...

Tal como uma bola de cristal , não poderia estar melhor...